Democracia às avessas

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
Não satisfeito com o resultado do referendo de 2007, contrário às reeleições ilimitadas para a presidência, mais uma vez Hugo Chávez coloca o assunto em pauta, dessa vez incluindo todos os cargos públicos do país. É claro que ele não ia desistir. Conseguiu, e mesmo que não tivesse conseguido, o mesmo referendo voltaria a acontecer, quantas vezes fosse preciso.
Parece estranho que da última vez o “não” tenha ganhado e agora, com a população bem mais conscientizada do que há dois anos, tenha perdido. A explicação é mais simples do que parece: o número de chavistas votando na época foi muito pequeno, insuficiente para superar o número de pessoas que se opunham. Na verdade, não foi a oposição quem ganhou, foi o governo quem perdeu. E isso pode até ter fortalecido o governo de Chávez a médio e longo prazo, mas também preocupou. Hoje o número de pessoas que foram as urnas dizer não é significativo.
Na Venezuela a democracia parece um mar de rosas. Lá o voto é facultativo, todos os cidadãos são livres para irem, ou não, às urnas e votar. Eles podem escolher se querem escolher. Porém, mesmo que valores democráticos como a pluralidade e a diversidade políticas estejam previstos na Constituição, isso parece não fazer diferença. Muitos podem pensar: “mas muitas constituições são alteradas e ajustadas, e por vezes o povo sequer é consultado para isso, pelo menos Chávez está consultando o povo”. Papo furado! Ele está “permitindo” que a população decida, democraticamente, se quer acabar com mais um pilar da democracia ou não. Francamente! O que o atual presidente da Venezuela faz e propõe nada mais é que uma democracia extremamente maquiada, cuja verdadeira face os cidadãos venezuelanos mal conseguem se lembrar. E vivem essa democracia que é mostrada a eles, contentados, crentes que governo mais democrático não há. Na prática, a teoria é outra.
Falar em um golpe soa muito agressivo, mas Chavéz está caminhando cuidadosamente para conseguir o que quer, governar a Venezuela durante os próximos 40 anos. Não é exagero, durante a campanha, Chávez chegou a afirmar que pretende governar até 2049.
Foram necessárias chantagens baratas de que sem ele haverá guerra e caos. Intolerância e desrespeito às forças de oposição. O presidente controla todos os poderes e até mesmo a Assembléia Nacional está submetida às suas vontades. Fica difícil agir com as mãos amarradas, mas estão lutando contra como podem. E depois do resultado deste referendo, parece que estão cada vez mais perto de conseguir. Sobra para quem protagonizar essa luta? Para os estudantes, claro, que vêem seu país cada vez mais ultrapassado e enterrado em uma (ainda não considerada) ditadura perpétua e repetitiva.
Muito deveria admirar que Chávez tenha conseguido dessa vez. O tráfico de drogas tem envolvimento com a polícia venezuelana e a criminalidade continua crescendo: em 10 anos o número de homicídios quase triplicou. No ano passado a inflação atingiu quase 32% (precisamente 31,7%), a maior porcentagem da América do Sul. E se o governo de Chávez conseguiu reduzir o índice de pobreza pela metade no país (o que é louvável), ele deve isso não a atos de seu governo, mas ao fato de a Venezuela ser o maior exportador de petróleo da América Latina e o quarto maior fornecedor dos EUA. O que está custeando os projetos sociais é justamente o petróleo. Se não fosse por isso, estavam perdidos os venezuelanos.
Hugo Chávez está brincando de democracia com seus bonecos-cidadãos e sendo cada vez mais mimado. Mais uma vontade sua foi satisfeita. Veremos até quando Chávez levará sua “Revolução Bolivariana” adiante.


8 comentários:

Anônimo | 17 de fevereiro de 2009 16:38

É Anna, urge também a nós, que somos patidários da democracia, observar a situação nacional. A grama do vizinho parece sempre mais verde, mas parece que bem do nosso lado que mora o verdadeiro mal. Tirando um ou outro líder de estado mais fanfarrão e indiscreto com seus discursos antiamericanos, se analisarmos as práticas políticas em linhas gerais essêncialmente todos os governos de esquerda da América Latina vêm seguindo o mesmo critério.

O que mais me assusta, é que toda a ação discreta e minuciosa programada por esses partidos de maneira muito organização está prevista desde o XXº Congresso do Partido Comunista da União Soviética PCUS (1956).

De acordo com o Professor Sérgio Coutinho "esta concepção pressupõe o Partido revolucionário na legalidade, valendo-se das franquias democráticas e participando do jogo político legítimo. Entretanto isso não exclui a realização de certas atividades clandestinas e acumulação de forças com o eventual emprego da força armada no momento da tomada de poder."

Falando em clandestinidade, muitas existiram nesse referendo, em uma mistura de favorecimento descarado da campanha do governo até a vista grossa do órgão de justiça eleitoral. Veja as denúncias no blog: www.notalatina.blogspot.com


É, Anna, já é mais do que hora pra nós, universitário brasileiros, abrirmos os olhos para essas ameaças reais contra a democracia deixando de querer agradar todo mundo tolerando as idéias mais totalitárias com pele de cordeiro que circulam dentro das universidades.

Vivemos um momento de tensão e cuidado. Pois é certo, que "nenhuma liberdade é tirada de uma vez só."

Beijos,
Zé.

Diogo Tunico | 19 de fevereiro de 2009 02:37

Chaves realmente parece abusar da boa vontade do povo venezuelano e ser bem flexível com as instituições políticas modernas, mas justiça seja feita, o petróleo sozinho não diminui a pobreza, o governo fez diferença pelo menos nisso. Basta ver alguns países africanos ricos em petróleo e com populações miseráveis.
Resumidamente, herói ele não é, mas tb não é um vilão da Malhação.

Quanto ao comentário do colega acima, não sei não heim, acho que essas "atividades clandestinas", extra-legais, estão longe de ser privilégio da esquerda latina, muito menos surgiram no tal XX Congresso em 1956. Elas existem, pelo menos, desde quando surgiram as leis reguladoras da política, são anteriores ao conceito de esquerda ou direita.

Aliás, essa tese de que existem organizações de esquerda, inspiradas pelo comunismo, em vias de tomar a liberdade do povo brasileiro, que precisam ser combatidas, foi muito bem utilizada pelos articuladores do Golpe de 64, que em defesa da liberdade, da democracia e da república, ironicamente nos tomaram as três por um tempo.

anna | 19 de fevereiro de 2009 19:59

ok. justiça seja feita Tunico =)
mas se nem isso ele fizesse. Aí "adeus popularidade" mesmo né. Claro q ele não fez pros outros, fez pra si. enfim. Ele mau, pior que o pica-pau. hehehe
A respeito desse Congresso, eu definitivamente nem sei do que estão falando.

Tha | 20 de fevereiro de 2009 10:01

Medo deste homem...

Lembrei agora do argumento de que o Brasil não teve uma ditadura militar porque tínhamos rotatividade de governo e Constituição. Faz-me rir, ha ha ha

Veja bem, todo governo autoritário controla os mais esclarecidos e engajados (eu apenas sedentos por poder, por que não?) com base na força bruta: predendo, torturando, fuzilando, por aí vai... Mas estes são poucos. A multidão é forte, não pode ser controlada com força bruta, para ela os governos autoritários preparam as ideologias. Por isso controlar a educação infantil e muitas vezes até incluir o nome do "Rei" nas canções de pré-primário, controlar os meios de comunicação, e, obviamente, reduzir a pobreza porque contra fatos não há argumentos. Assim a multidão vai sendo mantida alienada... (ok, soou marxista, mas quem não é pelo menos m pouco marxista?).

Mas eu sou otimista =D
Meu raciocínio otimista é complicado e não vale a pena escrever aqui... Mas meu otimismo me faz ter um medo paranóico de coisas como o chavismo. Ele não pode acontecer. Já me entristece demais a Câmara ter aprovada a entrada da Venezuela no Mercosul... e a cláusula da Democracia? Estamos mesmo acreditando que na Venezuela existe uma democracia, ou estamos tomando nosso papel neste teatro hipócrita? E como eu acredito que o chavismo está se tornando um fenômeno na América Latina, por favor, meu Deus, não deixa isso pegar o Brasil... E olha, que as vezes acho que em algumas coisas pegou, viu? Eu tenho medo.

Anônimo | 20 de fevereiro de 2009 20:53

É Diogo, eu acho que eu estou errado. Na verdade a ditadura que está pra estourar no Brasil é uma ditadura da extrema-direita.

Faça-me o favor. Dizer que esse "espírito" de conspiração da esquerda é sinal disso, é uma maneira de tentar predizer ações políticas com um critério muito duvidoso.

Abraços
Zé.

Anônimo | 20 de fevereiro de 2009 21:01

Quanto ao XX° Congresso. Não me admira que não possa encontrar o texto original na internet com muita facilidade, mas encontrando, eu mostro. Não falo das ações clandestinas em qualuer ação política que seja, e sim, especificamente, na tomada do aparelho do estado fazendo uso de sua própria estrutura para alcançar no final o governo proletário, presidido pelo partido único.

Em suma, não falei do gênero global "atividade clandestina na política", e sim, da espécie de atividade clandestina, chamada "tomada pacífica do poder".

Espero que com essas observações suas objeções sejam respondidas.

Espero ter esclarecido
Zé.

Diogo Tunico | 21 de fevereiro de 2009 16:53

Acho que está faltando nos comunicarmos melhor. Eu não disse que vai haver um golpe no Brasil, nem da direita nem da esquerda. Disse o que aconteceu em 64, só para mostrar a ironia da situação e a hipocrisia do argumento.

Eu até concordo que o PT tem um jeito um pouco impositivo de governar e se expressar, chegando às vezes a passar por cima do modo democrático desejável, mas daí a dizer que com isso estamos nos encaminhando para o "governo proletário de partido único", é uma simplificação imensa da política brasileira.

Quanto a estratégia de tomada pacífica do poder, valendo-se do uso da estrutura democrática legal combinado com eventuais atividades clandestinas, é inocência achar que isso foi inventado pelos comunistas em 56, ou que seja uma estratégia da esquerda. No máximo, é uma apropriação esquerdista de uma estratégia política já conhecida, aplicada pelo Hitler, por exemplo.

Por fim, essa estratégia, mesmo que possa estar na cabeça de meia-dúzia de petistas, está longe de ser empregada aqui, na atual condição sociopolítica brasileira.

| 27 de fevereiro de 2009 13:38

Diogo,

Você não gosta de simplificação, mas muitas vezes, no simples observar atento dos acontecimentos, isto é, fatos consumados como este relatado na postagem da Anna, já somos capazes de tirar algumas conclusões.

Os processos de inversão do Estado Democrático de Direito para o Estado Totalitário, independente da facção política dirigente do ato, comportarão certa similaridade se forem observados seus métodos gerais. Isso é ponto pacífico. Sua objeção não é errada quando diz que governos anteriores ao Congresso Comunista de 56 já utilizaram de meios parecidos. Só penso ser errado o modo como você usa essa evidência como prova cabal de que não poderia existir qualquer aperfeiçoamento do método primário, adequado a um plano ideológico específico de tomada do poder ao molde comunista, nesse exato momento na América Latina.

Seria hipocrisia muito maior do que dar ouvidos à maniqueísmos ideológicos, observar as ações políticas dos governos latino-americanos de esquerda coincindirem perfeitamente com as orientações do XX° Congresso(ou com as táticas usadas pelos Nazistas, como você preferir) e concluir que isso não significa nada. A questão central não é se inventaram as tomadas de poder autoritárias naquele dia, e sim, que seguindo o roteiro daquelas orientações, estão colocando em risco a democracia na América. Mesmo supondo ser uma grande coincidência, ou visão simplificada da política continental, é bastante digno de atenção observar esses atos, sobretudo o mais recente nas reeleições ilimitadas de Hugo Chávez.

Não tenho dons cognitivos tão altos para dizer se essa estratégia está na cabeça de meia dúzia ou de mil petistas. Mas tenho olhos, alfabetização e caneta, para anotar toda a conduta deste governo que estranhamente se encaixa como uma luva nessa conspiração que incomoda as cabeças pequeno-burguesas.

Agradeceria se você pudesse falar com exatidão que condições sociopolíticas impedem tal intento. Isso tranquilizaria muito alguém que vê justamente o contrário, já que eu posso listar se você pedir, todas as que fortalecem a minha opinião.

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