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Eluana Englaro descansa em paz, mas e a Itália?

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009 — 2 comment(s)
Não é de hoje que a eutanásia divide opiniões no mundo todo. Há dez anos a família de Eluana Englaro lutava na Justiça para que permitissem a sua eutanásia. Desde o dia 18 de maio de 1992 ela permanecia em estado vegetativo, recebendo alimentação e hidratação artificial.

Enfim, anteontem, o mundo recebeu a notícia de sua morte. Ou seria de seu assassinato? A Igreja Católica transformou o fato em uma verdadeira narrativa de atentado cruel contra a vida humana. Entre os políticos, a questão deixou de ser o direito à vida e à morte, e passou a ser cada vez mais oportunamente política. De um lado, o presidente da Itália, Giorgio Napolitano, a favor da eutanásia e do lado da família de Eluana, que queria por fim ao sofrimento de 17 anos. De outro, o primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, completamente contrário a permitir a morte de Eluana. E do lado de fora, doido para entrar na briga e pondo cada vez mais lenha na fogueira, Walter Veltroni, principal rival de Berlusconi. Napolitano, do Partido dos Democratas da Esquerda. Berlusconi, do Partido da Liberdade, da centro-direita. Walter Veltroni, do Partido Democrata, logicamente afim do partido presidencial.

Mas então, resolvido o problema? Não. Primeiramente porque antes disso Berlusconi propôs um decreto-lei que impedia a eutanásia, porém vetado pelo Presidente. Não satisfeito, o primeiro-ministro italiano tentou impedir o desligamento dos aparelhos através de um projeto de lei enviado com urgência ao Senado, onde detém maioria. Enquanto o projeto era debatido, Eluana faleceu. Talvez bem mais do que uma disputa política, até então, travou-se um embate de convicções pessoais. Uns defendendo e outros acusando a prática da eutanásia.

Respeito é bom e todo mundo gosta; e enquanto toda essa disputa (política ou não) acontecia, um pai lutava legalmente para tirar a vida de sua filha e diminuir o sofrimento que já se estendia por 17 anos. Uma luta que, quanto mais se alongava, mais sofrível se tornava. Pois bem, o senhor Giuseppe Englaro conseguiu a autorização judicial e sua filha já descansa em paz.

Agora o que não faltarão serão oportunidades para Walter Veltroni, líder do Partido Democrata e de oposição (aqueeele que concorreu a primeiro-ministro italiano com Berlusconi no ano passado!) acusar o rival de irresponsável e afirmar que suas atitudes estão revestidas de intenções políticas. E se forem intenções políticas, o que Veltroni está fazendo é, nada mais, nada menos, do que se aproveitar disso para tentar diminuir a popularidade do primeiro-ministro. Veltroni agora “deita e rola” afirmando que Berlusconi queria apenas gerar um crise institucional. Pelo visto conseguiu. Agora é Governo versus Presidência. (E pensar que quando competiam a primeiro-ministro da Itália, falava-se até em uma aliança entre os dois. Seria o governo Veltrusconi. A possibilidade de aliança, porém, só existiu devido a interesses parecidos, e somente sob a circunstância de um deles não vencer a eleição com uma maioria clara e significativa). E, como se não bastasse, o país, de maioria católica, ainda sofre constantemente com as pressões do Vaticano, que se opôs a atitude do presidente Napolitano.

A eutanásia continuará causando polêmica pelo mundo inteiro, mas se aproveitar de uma situação como essa para ações políticas já é demais. Por mais que todos eles neguem qualquer pensamento político por trás das ações, quando um usa o que o outro faz para acusá-lo, não como ser humano, mas como político, ele já está agindo politicamente.